Políticas Públicas: “resolução de problemas”

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas (TO)

 

Há cinquenta e seis anos que os bispos da Igreja Católica no Brasil escolheram a Campanha da Fraternidade (CF) como parte integrante dos exercícios quaresmais. Recentemente vi nas redes sociais uma campanha que dizia o seguinte: “queremos a quaresma sem campanha da fraternidade”. Com todo respeito a quem pensa assim, gostaria de dizer que, ao menos este ano, não haverá quaresma sem Campanha da Fraternidade. E no futuro somente haverá se os bispos decidirem o contrário. Não seriam políticas públicas o jejum que Deus prefere: – quebrar as cadeias da injustiça e livrar o oprimido do jugo da opressão, repartir o pão com o faminto, acolher o desabrigado, vestir o que está nu (Is 58,6-7; Texto Base da CF-2019, 121)? O papa Francisco detectou, nos dias atuais, duas heresias do segundo século, como falsificações da santidade: o gnosticismo que supõe uma fé fechada no subjetivismo, em que interessa apenas uma determinada experiência, na qual a pessoa é enclausurada na imanência da sua razão ou dos seus sentimentos (Gaudete et Exsultate, 35-36); e o pelagianismo que, no fundo, confia menos na graça e mais nas próprias forças, ao se sentir superior aos outros, por cumprir determinadas normas (49). Sábias e oportunas são as palavras do anjo da igreja: “dou-te este conselho: compra de mim ouro refinado no fogo, para ficares rico, e vestes brancas para vestires, e não aparecer tua nudez vergonhosa; e compra também colírio para ungir os teus olhos para que enxergues” (Ap 3,18).

Campanhas quaresmais como esta não é exclusividade do Brasil. A CF brasileira já foi copiada por diversos países. Na Alemanha há uma Campanha, semelhante a esta, chamada de “Misereor”, também no tempo da quaresma, que arrecada doações para financiar projetos sociais em várias partes do mundo. “Misereor” significa misericórdia, palavra teologicamente própria para o espírito quaresmal. A conversão que se prega no tempo da quaresma é para termos misericórdia do pecador, do sofredor e dos socialmente vulneráveis, como teve o bom samaritano. A CF também pede um gesto concreto penitencial para financiar projetos sociais.

A CF tem basicamente estes dois sentidos: um sentido penitencial religioso: – despertar o espírito cristão da penitência e da conversão do povo de um pecado social que contradiz o Evangelho de Jesus Cristo, por afetarem a vida da maioria da população; e um sentido penitencial social: – despertar a consciência para o compromisso cidadão, através de gestos concretos para a resolução desses problemas. Aliás, gostei muito da definição de políticas públicas como “resolução de problemas” (Texto Base, 45). Pode não ser a melhor definição, mas certamente é a mais simples e mais direta, que todo mundo entende. O que de fato a Igreja quer com esta CF é que os problemas que a população enfrenta no seu dia-a-dia sejam resolvidos; e que o dinheiro público (nosso) seja aplicado em benefício de todos, especialmente dos mais pobres, nas áreas da saúde, educação, segurança, moradia, emprego, renda, mobilidade, seguridade alimentar, saneamento básico, previdência social e cuidado com a casa comum, entre outras. É missão da Igreja prestar estes serviços à sociedade.

Na atual conjuntura brasileira, o que mais se escuta, se vê e se teme são as ameaças às políticas públicas, por corrupção ou por ideologia. Fake news ou não, pairam no ar incertezas com relação às conquistas sociais para os mais pobres. Mas, há também sinais de esperança, sobretudo, quando a Igreja defende valores, tais como, a fraternidade, a comunhão e a solidariedade e a ecologia integral. No que se refere às políticas públicas devemos ter três olhares: o olhar amoroso, o olhar cuidadoso e o olhar esperançoso. Por isto, convidamos a todos a vestir a camisa da CF-2019 e arregaçar as mangas, participando, inicialmente, do estudo do Texto Base, dia 09/03, na Paróquia Mãe Rainha, e dos lançamentos, dia 14/03, na Assembleia Legislativa e dia 20/03, na Câmara Municipal de Palmas.

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09/07/2018
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