Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
O Dom que Transforma: Pedro, Paulo e a Missão que Continua
O Óbolo de São Pedro e o Sentido de Pertencer à Igreja Universal
Há uma cena nos Atos dos Apóstolos que merece ser contemplada com cuidado. Pedro e João sobem ao Templo para a oração da tarde. Na porta chamada Formosa, um homem coxo de nascença pede esmola. Pedro para, olha para ele e diz palavras que ficaram gravadas na memória da Igreja: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!” (At 3,6).
Essa cena não é apenas um relato de milagre. É uma declaração sobre o que a Igreja tem a oferecer ao mundo.
O que Pedro tinha para dar
Pedro não tinha riqueza material. Mas tinha algo que o dinheiro não compra: a presença viva de Jesus Cristo. Ele não deu moedas. Ele deu vida. Ele deu movimento. Ele devolveu ao homem a dignidade de caminhar com os próprios pés.
Essa distinção é importante. A Igreja não existe para ser uma instituição de socorro financeiro, embora o cuidado com os pobres seja parte essencial de sua missão. A Igreja existe para transmitir o que Pedro transmitiu: a força do nome de Jesus, que levanta, que restaura, que devolve ao ser humano sua capacidade de andar.
É nesse horizonte que precisamos compreender o Óbolo de São Pedro.
O Óbolo não é uma arrecadação qualquer. É um gesto de comunhão com o Papa, com a Igreja universal, com os irmãos que sofrem em tantos cantos do mundo onde a fé custa caro, onde viver o Evangelho exige coragem e muitas vezes sacrifício. Quando cada fiel contribui com o que pode, está repetindo, à sua maneira, o gesto de Pedro diante do homem da porta Formosa. Está dizendo: o que tenho, eu partilho.
Paulo e a testemunha que não se cala
Na Segunda Carta a Timóteo, Paulo escreve com a serenidade de quem chegou ao fim de uma longa jornada: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). Essas palavras não são de um homem que se vangloria. São de alguém que, olhando para trás, reconhece que não foi ele quem sustentou a caminhada.
“O Senhor esteve a meu lado e me deu forças” (2Tm 4,17).
Paulo foi separado desde o ventre materno para uma missão que ele mesmo não escolheu (Gl 1,15). Perseguiu a Igreja antes de ser alcançado por Cristo no caminho de Damasco. Sua conversão não foi resultado de estudo ou de esforço pessoal. Foi graça pura. E é justamente por isso que ele pôde dar tudo: porque recebeu tudo gratuitamente.
Há aqui uma lição que toca diretamente o sentido do Óbolo. Damos porque recebemos. A generosidade cristã não nasce de obrigação ou de pressão social. Nasce do reconhecimento de que somos devedores de uma misericórdia que não merecemos.
A pedra e as chaves: Pedro como fundamento visível da unidade
No Evangelho de Mateus, Jesus pergunta aos discípulos quem ele é. Pedro responde sem hesitar: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Jesus então lhe diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja” (Mt 16,18).
Essa declaração é o fundamento da missão petriana. Pedro não é pedra por mérito próprio. Ele é pedra porque Jesus o fez pedra. A confissão de fé que Pedro pronuncia não veio de raciocínio humano. “Não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (Mt 16,17).
O Papa, sucessor de Pedro, carrega esse mesmo peso e essa mesma graça. Não é uma autoridade que se impõe pela força. É um serviço que se exerce pela fé. E o Óbolo de São Pedro é, concretamente, a forma como os fiéis de todo o mundo expressam que reconhecem esse serviço, que participam dessa missão, que se sentem parte de uma Igreja que não tem fronteiras geográficas nem culturais.
Quando um fiel no Brasil contribui com o Óbolo, está unido a um cristão perseguido no Oriente Médio, a uma comunidade empobrecida na África, a um missionário que trabalha em silêncio em algum lugar do mundo onde o Evangelho ainda não chegou com plenitude.
O anjo que liberta e a Igreja que ora
A primeira leitura da Missa do dia narra a prisão de Pedro por Herodes. A Igreja rezava continuamente por ele (At 12,5). E o anjo veio. As correntes caíram. A porta de ferro se abriu sozinha.
Esse texto diz algo que precisa ser ouvido com atenção: a oração da Igreja tem poder. Não é um recurso de último caso. É o primeiro e mais eficaz instrumento da missão. E o Óbolo de São Pedro sustenta, entre outras coisas, a capacidade do Papa de estar presente onde a Igreja precisa, de enviar ajuda onde a perseguição é real, de manter viva a comunhão onde ela está ameaçada.
Pedro foi libertado não porque era forte, mas porque a Igreja orava e Deus age. Nós somos chamados a ser parte dessa corrente de graça.
Caminhai no Senhor
Irmãos e irmãs, a solenidade de São Pedro e São Paulo nos convida a mais do que admirar dois gigantes da fé. Nos convida a perguntar: o que tenho eu para dar? Como participo da missão universal da Igreja?
O Óbolo de São Pedro é uma resposta concreta a essa pergunta. Não é o único gesto possível, mas é um gesto real, que une cada um de nós ao ministério do Papa e à missão da Igreja nos quatro cantos da terra.
Pedro não tinha ouro nem prata. Mas tinha a força do nome de Jesus. Nós temos esse mesmo nome. Temos a fé que nos foi transmitida. Temos a graça dos sacramentos. E temos a responsabilidade de partilhar o que recebemos.
Que Pedro e Paulo, que deram tudo, nos ajudem a dar o que temos, com alegria e liberdade.
Caminhai no Senhor.
