Solenidade de São Pedro e de São Paulo! 

Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS) 

Na Solenidade de São Pedro e São Paulo não celebramos apenas dois grandes homens do passado; celebramos o mistério de uma Igreja que permanece viva, guiada pelo mesmo Espírito Santo através dos tempos. A tradição costuma chamar Pedro e Paulo de “as duas colunas da Igreja”. Uma metáfora belíssima, mas que esconde uma realidade humana profunda.  

Pedro é o pescador da Galileia. O homem institucional, que guarda as chaves, que chora suas fraquezas, mas permanece como a rocha da unidade. Paulo é o missionário das fronteiras. O intelectual de Tarso que avança para os confins do mundo pagão, o homem do carisma e do anúncio destemido. Eles chegaram a divergir em Antioquia sobre os rumos da missão, mas o que os uniu não foi a uniformidade, mas a comunhão no mesmo sangue derramado por Cristo em Roma. A Igreja não se sustenta sobre a homogeneidade, mas sobre a diversidade reconciliada no amor. 

Essa santa tensão entre a instituição que unifica e o carisma que avança continua moldando a Cátedra de Pedro até os nossos dias. Podemos perceber o reflexo vivo dessas duas colunas ao olharmos para a transição e a continuidade dos últimos pontificados, especialmente nas figuras do Papa Francisco e do nosso atual Pontífice, o Papa Leão XIV. 

No Papa Francisco, nós vimos de maneira pulsante a coluna de Paulo. Francisco foi o papa que convocou a Igreja a ser um “hospital de campanha”, a “sair de si mesma” e ir ao encontro das periferias existenciais. Como Paulo, ele desafiou as estruturas rígidas para dar prioridade ao querigma, o primeiro anúncio do amor de Deus, e ao diálogo com o mundo moderno, desbravando novos caminhos de sinodalidade. 

Agora, ao olharmos para o Papa Leão XIV, o antigo Cardeal Robert Prevost, contemplamos uma belíssima síntese que nos recorda a coluna de Pedro, sem perder o ardor paulino. Nascido nos Estados Unidos, mas moldado pelo chão missionário do Peru e pela sólida formação jurídica e agostiniana, Leão XIV assume a barca de Pedro em um tempo desafiador, marcado por conflitos globais e pelo avanço vertiginoso da Inteligência Artificial. 

Ao escolher o nome de Leão XIV, ele evoca a memória de Leão XIII (o pai da Doutrina Social da Igreja), trazendo para o centro do debate a justiça para os trabalhadores, a dignidade dos migrantes e o cuidado com a ética diante das novas tecnologias. Como Pedro, Leão XIV exerce o papel de zelar pela comunhão, trazendo sua experiência no Dicastério para os Bispos para garantir a governança e a ordem eclesial, mas com os pés fincados na realidade dos pastores que precisam ter, como ele mesmo teve no Peru, o “cheiro das ovelhas”. 

O mundo moderno adora criar divisões e polarizações: “Sou de Francisco!”, “Sou de Leão XIV!”. Mas a Solenidade de hoje nos proíbe esse reducionismo. A Igreja precisa da audácia profética de Francisco para não se fechar em um museu de cinzas; e precisa da sabedoria estrutural, do zelo doutrinário e social de Leão XIV para navegar com segurança nas águas turbulentas da pós-modernidade. Pedro e Paulo não se anulam, complementam-se. Francisco e Leão XIV servem ao mesmo Senhor. 

Celebrar Pedro e Paulo, e rezar pelo Papa Leão XIV, é compreender que nós também somos pedras vivas dessa construção. Sejamos como Pedro: firmes na fé, amantes da unidade e da Tradição da Igreja. Sejamos como Paulo: incansáveis na caridade, corajosos diante dos novos tempos e prontos para evangelizar a cultura de hoje. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, sustente o Papa Leão XIV em seu ministério e nos conceda a graça de sermos uma Igreja unida, santa e missionária. 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado. 

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