A hospitalidade e o discipulado radical 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller
Bispo de Frederico Westphalen (RS) 

13º Domingo do Tempo Comum Ciclo Ano A

A liturgia deste 13º Domingo do Tempo Comum (Ano A) convida-nos a refletir sobre o discipulado cristão, entendido como adesão total a Cristo, vivida na hospitalidade, no dom de si e na vida nova do Batismo. As leituras entrelaçam o acolhimento generoso, a prioridade absoluta de Jesus e a identificação com a sua morte e ressurreição. 

Na primeira leitura (2Re 4,8-11.14-16a), uma mulher sunamita, rica e sem filhos, reconhece em Eliseu “um santo homem de Deus” e oferece-lhe não apenas refeições, mas um quarto próprio no terraço da sua casa, mobiliado com cama, mesa, cadeira e lâmpada. A sua hospitalidade desinteressada é recompensada com a promessa de um filho. Este episódio ilustra que colaborar com os enviados de Deus, mesmo de forma discreta e material, participa do projeto salvador divino. A hospitalidade não é mero gesto cultural, mas adesão ao plano de Deus que transforma a vida e gera fecundidade. 

O Salmo Responsorial (Sl 89) canta a fidelidade eterna de Deus: “Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”. Ele recorda que o povo feliz caminha à luz do rosto de Deus, encontrando nele escudo e força. Esta confiança sustenta o discípulo nos desafios do seguimento. 

A segunda leitura (Rm 6,3-4.8-11) aprofunda o sentido do Batismo: “Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte”. Paulo afirma que o cristão foi sepultado com Cristo para viver uma vida nova. Mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus, os batizados não podem mais viver segundo a lógica egoísta do mundo. O Batismo não é um rito passageiro, mas uma configuração existencial com a Páscoa de Jesus: morrer para o pecado e ressuscitar para o amor gratuito. 

O Evangelho (Mt 10,37-42) apresenta as exigências radicais do discipulado. Jesus afirma: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”. O seguimento exige colocar Cristo acima de todos os afetos, tomar a própria cruz e perder a vida por causa dele para a encontrar verdadeiramente. No entanto, Jesus não termina com exigências; oferece também consolação: quem acolhe um profeta, um justo ou até “um destes pequeninos” por causa do discípulo, receberá a recompensa correspondente. Até um copo de água fresca dado a um discípulo não ficará sem prêmio. 

Estas palavras desafiam a nossa cultura individualista e familiar. Amar Jesus acima de tudo não significa rejeitar a família, mas ordenar todos os amores a partir dele. A cruz não é masoquismo, mas o caminho do dom total que liberta da escravidão do ego. A hospitalidade evangélica – acolher o outro como se acolhesse o próprio Cristo – torna-se expressão concreta deste discipulado. 

No mundo atual, marcado por fechamentos, migrações e individualismo, a mulher sunamita interpela-nos: somos capazes de criar “quartos” – espaços de acolhimento, escuta e partilha – para os enviados de Deus e para os mais necessitados? A comunidade cristã deve ser casa hospitaleira onde se manifesta a vida nova do Batismo. 

Que o Espírito Santo nos ajude a viver este discipulado radical: mortos para o pecado, vivos para Deus, generosos na hospitalidade e corajosos no testemunho. Assim, acolhendo e sendo acolhidos em nome de Jesus, receberemos a recompensa da vida eterna. Amém. 

 

 

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