Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG) 

 

“O que é a verdade?” (Jo 18,33-38a). Foi essa a pergunta desafiante que Pilatos dirigiu a Jesus, durante o rito sumário do processo que o condenou à morte cruel no madeiro da cruz. É essa mesma pergunta que fazemos hoje, diante de uma cultura de pós-verdade, em que as falsas notícias – Fake News – imperam nas redes sociais. Não se prima mais pela verdade dos fatos, mas pelas narrativas que são construídas para legitimar falsidades. 

Ao longo da história, houve várias tentativas de oferecer resposta satisfatória a essa pergunta. Busquemos o seu sentido semântico. A sua origem grega é Aletheia, que significa “não oculto”, “não escondido”, “não dissimulado” e “clareira” aberta numa mata fechada. Assim, verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito. A verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro é o evidente, ou o plenamente visível para a razão, diferente do pseudos, que é o falso e enganador. 

A origem latina da palavra é Veritas, que se refere à precisão, ao rigor e à exatidão de um relato no qual se diz, com detalhes, pormenores e fidelidade, o que aconteceu. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem enquanto narrativa de fatos acontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram. Um relato é veraz ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os fatos reais. Aqui, a verdade não se refere às próprias coisas e aos próprios fatos (como acontece com a aletheia), mas ao relato e ao enunciado, à linguagem. Seu oposto, portanto, é a mentira ou a falsificação. 

A língua hebraica também tem sua expressão Emunah, que significa confiança. Agora são as pessoas e Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pacto feito; enfim, não traem a confiança. A verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. Sua forma mais elevada é a revelação divina e sua expressão mais perfeita é a profecia. 

Assim, Aletheia se refere ao que as coisas são; Veritas se refere aos fatos que foram; Emunah se refere às ações e as coisas que serão. Eis a síntese do que compreendemos por “verdade”: se refere às coisas presentes (a própria realidade), aos fatos passados (linguagem) e às coisas futuras (confiança-esperança). O desafio está em distinguir a verdade das falsas narrativas, que envolvem  um aspecto mais subjetivo e persuasivo. 

Voltemos a Pilatos. Ele nos apresenta Jesus: “Eis o homem” (Jo 19,1-5b). São Justino, filósofo, cristão leigo e mártir buscou a verdade na filosofia grega, depois no pensamento judaico e, por fim, encontrou a verdade na fé cristã. Aí saciou a sua sede. Para ele, a verdade não era um conceito, um conjunto de ideias. Justino se deparou com uma pessoa. Identificou a pessoa de Jesus Cristo, o Logos, a Razão eterna, com a verdade e apostou toda a sua vida na defesa dessa Verdade. Escreveu duas apologias, defendendo a Verdade da fé, além do “Diálogo com o judeu Trifão”. Por essa Verdade encontrada e “experienciada” derramou o seu sangue, juntamente com os companheiros de sua escola. 

No Evangelho, Jesus assim se apresenta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). De fato, o encontro pessoal com Jesus nos faz deparar com a Verdade personificada (Jo 1, 35-42).  É esse o sentido que o Papa Bento XVI se refere: “Jesus Cristo é a Verdade que se fez Pessoa, que atrai a Si o mundo. A luz irradiada por Jesus é esplendor de verdade. Todas as outras verdades são uma centelha da Verdade que é Ele mesmo e que para Ele remete” (Discurso, 10/02/2006). 

E o Papa Francisco arrematou: “Isto é algo que nos faz pensar, cada encontro autêntico com Jesus permanece vivo na memória, nunca é esquecido. Esquecemos muitos encontros, mas o verdadeiro encontro com Jesus permanece sempre. (…) para cada um de nós, na vida, houve um momento em que Deus se fez presente com mais força, com uma chamada. Recordemo-lo. Voltemos àquele momento, para que a memória daquele momento nos renove sempre no encontro com Jesus” (Angelus, 17/01/2021). 

Tags:

leia também