A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) iniciou, na manhã desta terça-feira, a 119ª reunião do Conselho Permanente. O encontro reúne a Presidência da entidade, os bispos presidentes das Comissões Episcopais e dos Regionais da Conferência, além de representantes de Pastorais e Organismos. O encontro segue até o final da manhã de quinta-feira com vários temas sobre a realidade brasileira e da Igreja no Brasil.
O primeiro deles foi a análise de conjuntura social, apresentada pelo bispo de Carolina (MA) e coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura Padre Tierry Linardi, dom Francisco Lima. Para esta reunião, o tema aprofundado foi o processo eleitoral deste ano de 2026, com seus calendários, contextos, cenários, disputas nacionais e regionais. O documento oferecido aos bispos tem 136 páginas, com elementos sobre os cenários internacional, nacional e estadual.
O contexto das eleições 2026
A análise buscou ajudar os bispos a entenderem o tempo presente, “procurando perceber quais forças estão moldando a sociedade, quais esperanças estão surgindo e quais riscos precisam ser enfrentados” e quais desafios estarão diante do Brasil nos próximos anos. A intenção não foi dizer em quem votar ou antecipar resultados, de acordo com o grupo.
Alguns elementos citados sobre o contexto das eleições deste ano são os a crise na democracia liberal, a desconfiança nas instituições, a polarização, a dificuldade de diálogo e as transformações da revolução tecnológica na vida social. Segundo a análise apresentada, tendo por base os dados de pesquisas já divulgadas, as maiores preocupações dos brasileiros são segurança pública, corrupção, saúde e economia.
Cenário internacional
Ampliando o horizonte, dom Francisco falou da conjuntura internacional, que atravessa um momento complexo, com novos centros de poder ganhando importância, como a China, potência econômica global, e a Índia, que vem ampliando sua influência. Os conflitos pelo mundo também foram citados, lembrando de que suas consequências também afetam o país.
“Os conflitos no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia, as disputas comerciais e tecnológicas, os debates sobre energia e os impactos das mudanças climáticas afetam diretamente a vida dos brasileiros, mesmo quando parecem acontecimentos distantes”, pontuou dom Francisco.

Contexto nacional
No plano nacional, o texto aponta uma mudança importante na estrutura do poder político brasileiro, com a ampliação da influência do Congresso Nacional sobre o orçamento público e sobre a formulação de políticas governamentais; a transformação do eleitorado brasileiro e como temas sensíveis são tratados.
Há também a abordagem da conjuntura econômica como elemento decisivo para a disputa eleitoral com desafios que permanecem relacionados ao crescimento sustentável, à produtividade, ao equilíbrio fiscal e à redução das desigualdades.
A análise também apontou, ao olhar o cenário interno brasileiro, uma reorganização de forças em disputa com a polarização ainda relevante, mas com o surgimento de “novos movimentos internos tanto à direita quanto à esquerda”.

Olhar em frente: os desafios e oportunidades
De acordo com a análise de conjuntura social, o grande desafio no contexto atual é aprender a conviver com as diferenças sem destruir os vínculos que sustentam a vida comum. A principal mensagem contida no texto, segundo dom Francisco, é a seguinte:
“Uma sociedade democrática não é aquela onde todos pensam da mesma forma. É aquela onde pessoas diferentes conseguem compartilhar instituições, respeitar regras comuns e reconhecer a dignidade de quem pensa de maneira distinta.”
Há a necessidade, nesse sentido, de responder aos desafios estruturais que vão além do processo eleitoral, o que não representa competição política, “mas oportunidade de refletir que projeto de país que a sociedade brasileira deseja construir para os próximos anos”.
A análise foi concluída fazendo memória da relação entre fé e política a partir do Magistério da Igreja e do chamado ao exercício “de uma cidadania ativa com vistas à consolidação da democracia e dos valores da Doutrina Social da Igreja”.
A esperança é que esse exercício abra espaço para que o apelo feito pelo Papa Leão XIV façam com que “os critérios de justiça e solidariedade, derivados da fé, guiem as escolhas dos cidadãos-eleitores de modo a que a articulação ético-política se torne um escudo contra a desumanização dos processos de decisão e de regulação institucional-estatal”.
Mas também há “sinais concretos de esperança” que já podem ser percebidos para o discernimento do agir cidadão e eleitoral, segundo a análise:
“O primeiro deles é o reaparecimento, em diferentes espaços da sociedade civil, de uma consciência democrática mais vigilante, capaz de compreender que a política não pode continuar reduzida à disputa de poder, ao apelo ideológico ou ao simples confronto de extremismos. Cresce, sobretudo entre jovens, pastorais sociais, movimentos populares, universidades e organizações comunitárias, a percepção de que a democracia exige participação cotidiana, fiscalização cidadã e compromisso ético permanente”.
O texto é concluído sublinhando a esperança cristã, que “se manifesta como disposição concreta de participar da história, iluminando as escolhas coletivas com os valores do Evangelho, para que a política volte a ser instrumento de cuidado, justiça e promoção da dignidade da vida”.
Leia na íntegra a análise de conjuntura social.
Luiz Lopes Jr.
